Mito da Caverna – Platão

O mito da caverna, é uma metáfora utilizada por Platão em A República (livro VII). A idéia dele era mostrar como poderíamos nos libertar da condição de escuridão e ignorância que nos mantém aprisionados.

Maurício de Souza, trouxe brilhantemente este mito para o quadrinho, vale a pena dar uma olhada!

Quantas vezes nos sentimos presos, enraizados a preconceitos, estagnados emocionalmente, ou até mesmo sem ação própria?

O mito da caverna pode nos remeter a responsabilidade que temos de buscar nossas verdades, o que faz sentido em nossa existência, e não, na do outro. Se não escolhermos os caminhos a serem percorridos por nós, outra pessoa o fará com base em suas verdades, não nas nossas próprias.

Ficamos muitas vezes esperando o próximo assumir a responsabilidade de tudo, ou até mesmo procuramos um terceiro para culpar por nossas vidas, sem ao menos tentarmos ver o diferente, buscar o que nos torna essenciais em nossa própria jornada.

Outro momento de reflexão sobre este mito temos, em A caverna, onde Saramago recobra o mito de Platão para discutir o capitalismo em uma sociedade em que as pessoas tornaram-se apenas profissões, sombras.

E sermos sombras nunca nos colocará como atores principais em nossas vidas, seremos eternos coadjuvantes de nós mesmos.

Em terapia, começamos a nos questionar, a buscar nossas vontades, verdades e questionarmos o mundo a nossa volta, como ele está constituído, se queremos mantê-lo assim, ou se queremos mudá-lo, dar uma nova cor e forma para ele.

É um processo muitas vezes angustiante, em que entramos profundamente em nossas crenças, educação, raízes familiares; mergulhamos em temas desconhecidos ou que muitas vezes queremos apagar sem mexermos. Mas, que quando conseguimos encontrar nossas verdades, é libertador!

Com apoio do psicólogo começamos a trilhar nossas escolhas e transformá-las em algo nosso, totalmente mutável pelo momento em que vivenciamos novas verdades.

Afinal, a verdade nunca é uma só, ela muda de acordo com o sentido que dou para ela, ela é algo sempre questionável. Questionemos então nossas escolhas, nossas vidas e deixemos de ser sombras do que falaram um dia para nós!

Temos dias em que não queremos levantar da cama, dormimos mal porque ficamos pensando na vida e nas dificuldades de viver, ou queremos ficar quietos sem conversar com ninguém ou fazer nada.

Faz parte de nossa natureza nos isolarmos em alguns momentos para refletirmos ou descansarmos; mas e quando estes momentos são mais constantes do que os que estamos de bem com a vida, com disposição para o que vier?

Talvez nesses momentos vivenciemos a palavra mais usada neste século, ou melhor, conhecida como o mal do século, a depressão!

Ela é vivenciada na totalidade do ser humano, no corpo, na mente, nos sentimentos. Não devemos distanciá-la de crises e vivências. Temos que ir fundo dentro dela e compreendermos qual é a nossa depressão, por que estou assim.

Os sintomas da depressão são muito variados, indo desde as sensações de tristeza, passando pelos pensamentos negativos até as alterações da sensação corporal como dores.

São comuns os relatos em que a pessoa sente que sua vida está passando sem que ela faça nada, como se estivesse sentada na areia da praia vendo sua vida passar como um navio no mar, distante.

O mais importante é saber como a pessoa se sente, como ela continua organizando a sua vida (trabalho, cuidados domésticos, cuidados pessoais com higiene, alimentação, vestuário).

Além de medicamentos, a pessoa com depressão precisa de um acompanhamento terapêutico, no qual será percebida como além do rótulo depressão, mas como uma pessoa que de alguma forma está desajustada em seu tempo e que necessita falar e perceber seus sentimentos.

Orientação aos Pais

Ótimo texto escrito pela jornalista Eliane Brum na revista Época:

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI247981-15230,00.html

Do que chega no consultório, percebo o seguinte…

Alguns pais agem puramente com falta de interesse, algo como, se fizer tudo e der tudo ele não me atrapalha, dá para a Dra, ver se não é melhor ele tomar algum remédio para ficar mais tranquilo, calmo, ele é muito irriquieto, não para um minuto, faço tudo, dou tudo e ele não me deixa em paz!

Mas, existem os que se esforçam muito para dar aos filhos o que não tiveram na infância, adolescência e esquecem dos valores maorais, do amor.

E tem aqueles que tentam equilibrar a balança, e que se dão super bem nesta relação de que Amar muitas vezes é frustrar, principalmente quando o assunto são nossos filhos!

Busco muitas vezes na Orientação de Pais, trazer referências da educação que os pais tiveram, de relações criadas com base no Amor, respeito, educação. A vida é uma constante construção nossa, e nossos pais fazem parte deste início de construção, eles nos dão os alicerces!

Realmente muitas vezes precisamos frustrar nossos filhos para que eles aprendam a viver, faz parte do crescimento de qualquer pessoa a frustração, claro que não de uma maneira exagerada.

É tempo de travessia

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.     Fernando Pessoa

Faz algum tempo que ando pensando nesta citação de Fernando Pessoa, ela traz muito do caminhar de meus pacientes, e porque não ousar mais e dizer que o meu próprio caminhar.

Estamos em constantes transformações, neste minuto algo em nós muda e continuará mudando, então porque nos apegamos tanto as coisas, sejam elas pessoas, roupas, acessórios, imóveis, carros, idéias, pensamentos, crenças. Porque vivemos muitas vezes de maneira tão superficial, os temas que nos distanciam de nossa essência, de quem realmente somos.

Ficamos constantemente vivendo pelo outro, seja por uma idéia, um desejo, uma necessidade de pertencer, e esquecemos do que queremos, sentimos, pensamos. O encontro com nossa essência nem sempre é algo fácil, mas é primordial para nos conhecermos melhor, trocarmos o que não queremos mais, o que não nos cabe mais, o que não faz (ou nunca fez) sentido algum para nossas escolhas de vida, para sermos quem quisermos e pudermos ser.

Devemos olhar para nossos sentimentos, nossas escolhas e dar novos significados a elas, trocando quando não faz mais sentido, buscando assim dar novo sentido a nossa vida, e atravessar o caminho assumindo as escolhas que fazemos.

No consultório me deparo muitas vezes com pessoas que perderam o sentido de suas próprias vidas, que deixaram que os outros (pais, conjugês, chefes, amigos) escolhessem seus caminhos, não por preguiça ou por falta de conhecimento, mas sim, por tentarem se ajustar ao “mundo”, por tentarem pertencer a algo, quando na verdade, devemos escolher e assumir o que nos faz ser realmente o que desejamos ser, o que nos completa, para não corrermos o risco de vivermos a margem de nós mesmos, o que pode gerar muitos males físicos e emocionais (depressão, pânico).

Há no processo terapêutico um forte encontro do paciente com ele mesmo, onde consegue sentir, perceber e nomear o que não faz mais sentido em sua vida, por isso muitas vezes o vazio, a angustia, o choro, a melancolia, são tão presentes em nossos encontros. Mas há depois, a alegria deste reencontro consigo mesmo, o resignificar de suas escolhas, a liberdade de poder escolher e ser responsável por tudo o que quer e sente para si, e assumir sozinho os novos rumos de sua própria travessia, “com roupas novas”.

Esta é a mágica da nossa travessia interior, não deixem de fazê-la, é difícil, mas nos encanta e liberta!

Crianças Ansiosas

Uma variável em nossa vivência temporal é a ansiedade, algo que nos tira do presente, nos faz viver o futuro, algo ainda não realizado, que não está pronto.

Tenho encontrado no consultório, em conversas com amigos que tem filhos e nos trabalhos voluntários com crianças que este tema é algo bem comum na infância.

A ansiedade é totalmente trazida por nosso tempo vivido, por nossa dificuldade de vivenciar o agora, é quando a projeção mental no futuro é mais forte do que no presente. A criança pode ter este comportamento aprendido dos adultos que a cercam, mas hoje há estudos que mostram que os genes também podem ter o seu papel nesse quadro. Uma pesquisa realizada por cientistas na Alemanha e nos Estados Unidos mostrou que pessoas com variações do gene que regula o neurotransmissor dopamina, o COMT, possuem mais chance de desenvolver distúrbios de ansiedade.

Mas a genética é apenas um dos diversos fatores que contribuem para a ansiedade. O ambiente, como o convívio em casa com a família, exerce uma função importante no comportamento da criança.

A criança ansiosa normalmente não se concentra no momento atual, vivenciando antecipadamente todos os seus sentimentos, sentindo muitas vezes fobias (medo de ficar sozinha, presa, pessoas, largar fraldas, chupetas), roendo unhas e cutículas, respirando e comendo rapidamente, podem ter náuseas, diarréias, vômitos, dificuldades de concentração.

O importante é que ao percebermos nossas crianças com alguns hábitos ansiosos, tentarmos revisitar nossas condutas, nossas atitudes podem causar ansiedade nelas, assim como ficar mostrando a elas o comportamento “ansioso” muitas vezes não ajuda, só agrava mais a ansiedade. Devemos avaliar se a ansiedade não está vinculada a alguma mudança repentina que a criança passou (escola, casa, separação dos pais), a perda de um ente querido, nascimento de um(a) irmaozinho(a).

Se a ansiedade não diminuir com a atenção e amor dos pais (ajudá-lo a se concentrar, criar momentos prazerosos), um profissional deve ser consultado, pois no futuro suas vivências podem ficar comprometidas pela ansiedade (fobias sociais, depressão, pânico).